Aviões mais “complexos”, mas em geral muito mais seguros

Os aviões se tornaram “muito complexos” como afirmou o presidente americano Donald Trump? Os acidentes com dois Boeing 737 MAX em apenas cinco meses, em circunstâncias aparentemente similares, provocaram a retomada do debate sobre a automatização da cabine, apesar da indiscutível redução do risco aéreo.

Trump lamentou no Twitter que os aviões se tornaram “muito complexos para pilotar”, que é necessário ser “cientista de computação do MIT” para voar atualmente.

O transporte aéreo, no entanto, tem um dos níveis mais elevados de segurança vinculado a uma atividade humana e 2017 foi, por exemplo, um ano de “zero morte” para os aviões comerciais com mais de 20 assentos.

A proeza foi possível graças ao acúmulo sucessivo, desde o início da aviação comercial, de normas, tecnologias, infraestruturas, assim como da formação dos pilotos.

A Administração Federal de Aviação (FAA) americana foi criada após uma colisão aérea no Grand Canyon em 1956 ,que evidenciou a necessidade de regulamentação da aviação civil. E cada acidente aéreo é objeto de uma investigação exaustiva.

“Aconteceram mudanças a partir da Segunda Guerra Mundial para melhorar a estrutura do avião, a introdução da certificação, os testes de voo mais avançados”, explica Gérard Legauffre, analista aeronáutico independente.

“Também foi necessário melhorar o nível dos pilotos, com formações cada vez mais exaustivas”.

Os fabricantes desenvolveram sistemas para ajudar os pilotos, porque “efetivamente acontecia uma saturação cognitiva” nas situações de crise, ou seja, muita informação para assimilar em pouco tempo.

A mudança aconteceu nos anos 1980, com a incorporação das cabines inteligentes, que permitiram reduzir de maneira considerável os acidentes, mas que aparentemente deslocaram a responsabilidade final para os pilotos.

As cabines atualmente são equipadas com uma tela como um painel de instrumentos, ao invés dos antigos indicadores com agulhas, com o objetivo de visualizar claramente as principais informações do voo: velocidade, altitude, linha do horizonte, etc.

“Nos anos 70-80 se destacou o fato de que 75% dos acidentes eram provocados pelos pilotos, mas percebemos que era uma estupidez porque o piloto é o último elo da cadeia e, em função das informações que recebe, da compreensão que tem do sistema, vai ter reações mais ou menos adaptadas”, destacou Gérard Legauffre.

É o princípio do “queijo suíço”, pelo qual se considera que, com exceção de um ato humano deliberado, um acidente aéreo, em quase todos os casos, se deve a uma conjunção de vários “buracos”, várias falhas, cujo acúmulo provoca a catástrofe.

No caso de um avaria ou falta de manutenção, não é possível considerar o piloto como único responsável, mas ele pode ter o mérito se evitar o desastre.

Os investigadores indonésios estabeleceram após o acidente com o avião da Lion Air, que caiu no mar de Java em outubro passado e deixou 189 mortos, que durante o voo precedente o avião havia registrado problemas de dados de velocidade equivocados.

Estas falhas apareceram pouco depois da decolagem e os pilotos conseguiram resolver o problema desconectando a fonte de alimentação do compensador da aeronave, que permite controlar a inclinação do avião.

Os aviões atuais, chamados “de quarta geração da segurança aérea”, são projetados para evitar uma situação perigosa, mas os pilotos podem retomar o controle “como antigamente a qualquer momento.

No caso da Lion Air, o debate se concentra no sistema de estabilização “MCAS”, desenvolvido pela Boeing, que coloca automaticamente o avião inclinado se percebe que está perdendo altitude.

Mas para recuperar o controle quando um sistema deste tipo falha é necessário que os pilotos tenham sido corretamente informados, e treinados.

“O problema parece vir do fato que a Boeing decidiu retirar os pilotos do sistema de comando, considerando que não precisavam ter conhecimento da existência deste sistema”, disse um piloto, sob anonimato.

“Mas, desde os anos 2000, a formação está orientada à identificação e gestão dos riscos por parte da tripulação. A ideia é que o ser humano é mais a solução que o problema”.